terça-feira, 2 de outubro de 2007

A Janelinha!



Em tempos de novas janelinhas, lembrei das minhas.

Minha infância não foi parecida com as propagandas do OMO de agora... fui criança de apartamento. Andava de patins e skate no corredor, jogava bolinha de gude no carpete, e futebol com meu irmão no quarto (eu era uma boa goleira... minha técnica de defesa com o rosto era impressionante!). Nem por isso fui pouco criança! A imaginação ia loooonge!
Tínhamos uma chácara pequena. Todo fim de semana era entrar na Veraneio (Camburão) e ir chacoalhando até o Valparaíso. A diversão lá era fazer casinha de tijolo de barro, subir nas mangueiras de 2m que eram gigaaaantes pra mim, correr atrás das vacas do vizinho, prender formigas em bolinhas de sabão e comer fruta do pé!
O quarto de empregadas lá de casa era o quarto dos brinquedos... lá era outro mundo! Eram vários mundos! Pena que nem sempre eu inventava que mundo era... às vezes era um mundo qualquer do meu irmão, em que ele era o bandido e o herói. Sobrava o que pra mim??? Ser a vítima! Normalmente amarrada pelos pulsos e pelos pés com fita crepe numa cadeira. O "bandido" era eficiente, me amarrava de um jeito impossível de sair. Mas o "herói"... esse era surdo!!! Por mais que eu gritasse por socorro... nada! Meu herói era meu pai, mas o bandido ficava solto... mesmo merecendo pena de morte!
Era lá também que eu fazia comidinhas! Lembro de uma visita dos meus parentes do Rio; veio minha prima, que já era moça pra mim... devia ter uns 13 anos. E eu fazia várias comidas pra ela! E devia estar muito bom, porque mesmo nem eu sabendo o que tinha naquele prato, sempre que eu perguntava se estava bom, ela falava: "uma delícia!!!", e eu trazia mais! E ela comia sempre!
Na praia, minha avó prendia uma espiga de milho num cordãozinho de canudos amarrados, e falava que aquilo era um cachorro. Pronto! Eram três barrigudos arrastando espigas de milho pela areia, minha prima, meu irmão e eu. Eu não sei como eles se viam, mas eu... eu era a própria menininha do Coppertone!

As pessoas deviam rir muito, mas eu nunca percebi. Eu queria é puxar meu cachorro! Ele nadava e tudo! A alegria da minha mãe era quando a gente não queria deixar os coitadinhos abandonados na praia... eles tinham que ir pra casa com a gente!
Lembro também de uma conversa que tive com minha mãe, enquanto colocava 2 bubaloos na boca... eu queria aprender a escrever logo pra poder escrever um livro de memórias. Ela ficou rindo, falando que eu era muito nova pra ter um livro de memórias. Mas como eu podia esperar 50 anos pra isso, se eu nem lembrava direito do que tinha acontecido antes?! Claro que eu ia esquecer tudo! Eu não teria memórias!!! Depois ela me mandou cuspir os bubaloos, porque eu não conseguia mastigar 2 de uma vez, e a vida andou.

Ir pra casa da minha avó, isso era festa! Ela fazia massa de pão pro nosso lanche, mas a massa acabava virando massinha de modelar! Sabe aquela boneca que só tinha a cabeça, pra maquiar, fazer penteados?! A minha era meu avô! A gente podia fazer tudo, tudo, tudo! Era bom também fazer minha prima chorar na hora de dormir... coisa feia! A gente cantava "a cobra, a cobra, a cobra vai fumar" sussurrando e ela começava a chorar! Era fácil demais pra gente resistir!

Era bom demais!!! E é muito bom ver novas janelinhas aparecendo e poder participar de novo desse mundo, mesmo que de vez em quando. Um mundo em que no jardim moram todos os animais da África, um mundo de bicicletas (com rodinhas ainda) que voam de rampas, em que um pedaço de papelão vira todo tipo de veículo, de comidinhas, de sereias na piscina, de carros pintados de fogo em que eu sou carona, de "balairinas" e dançarinos de break!


"Oh! A idade venturosa da infância! Onde há outra mais feliz e mais tranquila, mais sorridente - isto é, mais egoísta?... Em volta de nós podem suceder as piores catástrofes. Se elas nos não arrancam nem os brinquedos nem os bolos, não nos atingem de forma alguma... não as compreendemos sequer... Quando muito, correm-nos lágrimas vendo chorar as nossas mães. No entanto, é só ainda vagamente que percebemos a dor humana. Por isso as nossas lágrimas secam depressa diante dos brinquedos. E se o quadro em que nos agitamos é risonho, a infância tansforma-se-nos então num jardim maravilhoso. Para as crianças felizes, só para elas, existe realmente um céu - o ceú dos seus primeiros anos."
Mário de Sá-Carneiro

E ainda: "Cachorro mordido de cobra, tem medo de lingüiça!"

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