
As pessoas deviam rir muito, mas eu nunca percebi. Eu queria é puxar meu cachorro! Ele nadava e tudo! A alegria da minha mãe era quando a gente não queria deixar os coitadinhos abandonados na praia... eles tinham que ir pra casa com a gente!
Lembro também de uma conversa que tive com minha mãe, enquanto colocava 2 bubaloos na boca... eu queria aprender a escrever logo pra poder escrever um livro de memórias. Ela ficou rindo, falando que eu era muito nova pra ter um livro de memórias. Mas como eu podia esperar 50 anos pra isso, se eu nem lembrava direito do que tinha acontecido antes?! Claro que eu ia esquecer tudo! Eu não teria memórias!!! Depois ela me mandou cuspir os bubaloos, porque eu não conseguia mastigar 2 de uma vez, e a vida andou.
Ir pra casa da minha avó, isso era festa! Ela fazia massa de pão pro nosso lanche, mas a massa acabava virando massinha de modelar! Sabe aquela boneca que só tinha a cabeça, pra maquiar, fazer penteados?! A minha era meu avô! A gente podia fazer tudo, tudo, tudo! Era bom também fazer minha prima chorar na hora de dormir... coisa feia! A gente cantava "a cobra, a cobra, a cobra vai fumar" sussurrando e ela começava a chorar! Era fácil demais pra gente resistir!
Era bom demais!!! E é muito bom ver novas janelinhas aparecendo e poder participar de novo desse mundo, mesmo que de vez em quando. Um mundo em que no jardim moram todos os animais da África, um mundo de bicicletas (com rodinhas ainda) que voam de rampas, em que um pedaço de papelão vira todo tipo de veículo, de comidinhas, de sereias na piscina, de carros pintados de fogo em que eu sou carona, de "balairinas" e dançarinos de break!
"Oh! A idade venturosa da infância! Onde há outra mais feliz e mais tranquila, mais sorridente - isto é, mais egoísta?... Em volta de nós podem suceder as piores catástrofes. Se elas nos não arrancam nem os brinquedos nem os bolos, não nos atingem de forma alguma... não as compreendemos sequer... Quando muito, correm-nos lágrimas vendo chorar as nossas mães. No entanto, é só ainda vagamente que percebemos a dor humana. Por isso as nossas lágrimas secam depressa diante dos brinquedos. E se o quadro em que nos agitamos é risonho, a infância tansforma-se-nos então num jardim maravilhoso. Para as crianças felizes, só para elas, existe realmente um céu - o ceú dos seus primeiros anos."
Mário de Sá-Carneiro
E ainda: "Cachorro mordido de cobra, tem medo de lingüiça!"
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