
"No meio das nossas máquinas perdemos de vista o fato de que a realidade básica da vida não está na política, nem na indústria, mas nas relações humanas (...)"
Will Durant, in 'Filosofia da Vida'
O que define um relacionamento? Penso que é a afetação. Um olhar pode ser uma relação, se esse olhar me afeta de alguma forma. Se ele me causa algum sentimento, se me modificou em algum sentido, me ligo a ele. E ainda, levando em conta a possibilidade dessa pessoa que lançou o olhar não ser afetada de modo algum pelo que fitou (não se ligando, não se relacionando), penso que a afetação está no significado investido no gesto.
Tá ficando complicado...
Vou ficar com as relações pessoais.
É... Ainda é complicado, porque as pessoas são indefinidas. Eu posso estar com uma pessoa desde seu nascimento, acompanhar seu desenvolvimento de perto, conversar, questionar a fundo o que ela pensa, mas nunca vou conhecê-la de verdade. Isso porque, além de mudarmos a cada momento, todos os atos e palavras são vazios de conteúdo no ambiente...
A comunicação se dá por mensagem vinda de um emissor para um receptor, certo?! Quando ela "sai" do emissor, já não pertence mais a ele, e enquanto não chega ao receptor, também não lhe é próprio. Está no ambiente, por assim dizer. O conteúdo de significado da mensagem está nas pessoas e não no ambiente.
Voltando: O que aquela pessoa que acompanho desde o nascimento faz ou fala tem significados diferentes para ela e para mim. Ainda que sejam muito próximos esses significados, nunca serão exatamente iguais. Os significados que eu coloco nas coisas são frutos do meu passado, de tudo que eu vivi e aprendi (e esse aprender é empírico e não teórico, até porque a teoria ensinada também é absorvida de forma diferente por todas as pessoas). E só EU vivi aquilo, porque só eu sou EU. Parece óbvio, mas nunca lembramos desse pequeno detalhe! Estamos sempre julgando tudo, e isso é natural. Mas ao julgar pessoas, temos que perceber que nosso julgamento é nosso, e não corresponde a verdade delas.
Para tentarmos definir os outros, para entendermos quem elas são, nos usamos como ponto de comparação. Ainda que não percebamos isso. Se é alto porque existe alguém mais baixo; Se é magro porque existe alguém mais gordo; E o outro é alto porque se é mais baixo... Enfim.
Então tá, comparamos os outros a nós mesmos para definirmos quem elas são. Mas o que define quem somos nós?! A construção da identidade também não vem da comparação que fazemos de nós mesmos com os outros?! Será que somos uma comparação do nada com coisa nenhuma?!
Acho que não. Acho que "identidade" é outra palavra qualquer que recebeu por convenção um significado pré-determinado de ser aquilo que nos define. Não é quem somos. Mas é difícil saber quem somos quando estamos permeados num mundo de comparações e relações.
O distanciamento é importante para sabermos quem somos, o que pensamos, o que nos é importante... É o "deserto" que nos esclarece. Sempre ouvimos aquela coisa mesquinha de que "só se dá valor ao que se perde". Eu entendo que só com alguma distância entendemos a importância que determinada coisa, pessoa ou experiência teve ou tem. E por distanciamento, entendo se "retirar" da situação, tentar entender a coisa por si só.
E depois de tanta falação, entendo que não adianta saber quem somos... e por conseqüência, quem os outros são. Adianta sim se relacionar (e é inevitável), e sempre tomar uma distância daquilo que nos cerca para peneirar o que é precioso e o que é cascalho!
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